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GUERRAS/CRISES

As crises, as guerras, as revoltas, as mudanças históricas, o abalo das certezas: que "holocausto" querem eles desta vez? E quem são "eles"?

Este projecto visou percorrer, durante um ano, um caminho de discussão e diálogo (dois pilares da democracia, mesmo que muitas vezes pareça estar moribunda) para promover a criação de objetos performativos (num continuado processo de exploração, discussão e experimentação) que incidisse (e reflectisse) sobre a situação política, social e financeira actual, a nível mundial. Para este percurso (para o qual foi convidada inicialmente a dramaturga italiana Letízia Russo) pretendeu-se também (ao aliar-se ao maior número de parceiros) "colocar a nú", de certa forma, o próprio processo do projecto.

Quando a semente deste projecto surgiu, a bolha do mercado imobiliário norte-americano tinha acabado de rebentar e todo o castelo de cartas financeiro mundial estava prestes a desmoronar-se, como um castelo de areia. Em Portugal a crise económica avançava a velocidade supersónica. Quando decidi arrancar (para os primeiros contactos) “esta” crise mundial estava prestes a rebentar. Alguns meses mais tarde, os primeiros movimentos anti-capitalismo ("estes" movimentos) faziam-se notar um pouco por todo o lado (enquanto o sul da Europa - e a Irlanda - davam notas de desgaste no seio da Comunidade Europeia). Quando finalmente o projeto Guerras/Crises avançou (primeiro com intenções de integrar o trabalho de mestrado na Universidade de Évora - mais tarde efectivamente integrado), outros acontecimentos foram desenhando o rascunho de um mundo em mudança: Egipto, depois Líbia, mais tarde movimentos como o M-15 (que poderão ter sido, de certa forma, as peças de dominó que deram azo a uma corrida de influência sensorial e que promovia o surgimento de pequenos e grandes movimentos - mais ou menos organizados - um pouco por todo o lado, como se de cogumelos se tratassem) que incentivaram o surgimento de outros movimentos de indignados e de revolta popular (paralelos aos regimes de austeridade financeira), numa ruidosa e presente gritaria de revolta.

Neste momento, vemos vários projetos artísticos que gritam ao lado (ou são parte, ou vão de encontro, ou são explosões) destas mobilizações. Ou que os espreitam. Ou que a eles vão beber. Entra-se em contacto com projectos artísticos que comungam das mesmas inquietações, em Évora, em Portugal, em Espanha, em França, na Europa, nos Estados Unidos, em África, na Ásia, na América do Sul... no Mundo! Isto vai para onde? E como actuar? E o olhar artístico?
O diálogo passa também por perceber que estas vozes são, obviamente, parte de um todo em acelerada modificação.

No caso do projecto Guerras/Crises a dificuldade estaria em determinar sobre o que é que o projecto poderia (ou deveria) incidir, já que (literalmente) todos os dias o foco de interesse parecia (e parece) mudar. É a dificuldade de reflectir sobre o imediato: a incerteza do aqui e agora. De facto, sempre se ouviu dizer que é menos matreiro tratar um determinado momento histórico já um pouco longínquo- vejamos os exemplos das prisões políticas do estado Novo ou dos campos de concentração Nazis, por exemplo.
Contudo, interessa (-me) mob
ilizar o projeto de uma forma o mais vasta e heterogénea possível (com os agentes e actores sociais, políticos, artísticos). Sair da sala de discussão dramatúrgica e estender a discussão mais além. De tão óbvio que é, quase não vale a pena referir que interessa fugir do trabalho fechado em sala para meia dúzia de interessados, de modo a potenciar a exploração e a criação artística fora de muros, com outros artistas (plásticos, músicos, outros performers, outras gentes). Mas apesar de óbvio, interessa a este projecto sobretudo esse resto: estimular a participação no processo, seja na rua, seja nos espaços de outros agentes artísticos e sociais, seja na internet, seja em Évora, seja em Portugal, seja em qualquer lado..












* primeira proposta do programa "Guerras/ Crises"